Classe média brasileira abre mão da cobertura dos seguros médicos e recorrem ao SUS ou às novas opções de menor custo
Nos últimos dez anos, tem-se notado uma estabilização no número de beneficiários de planos de saúde, por volta de aproximadamente 25% da população geral. Podemos incluir o agravamento da crise econômica, a alta do desemprego e dos preços em geral como fatores que restringem o acesso da maior parte da população ao planos de assistência médica. Além disso, os planos de saúde tiveram aumento de preço muito acima da inflação. Os individuais, em torno de 13%. Os coletivos, empresariais ou por adesão, de até 40%. Para piorar, a oferta pelos planos individuais e familiares caiu. Nos últimos 10 anos, o número de produtos do gênero caiu de seis mil para quatro mil, segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Nessa modalidade, as regras são bem mais rígidas, regulamentando os aumentos permitidos e restringindo o cancelamento somente em caso de desistência do usuário ou por inadimplência. Nos coletivos, a elevação de preço não está sob controle da ANS e pode haver rescisão unilateral do contrato pelas operadoras.
Mesmo que os atendimentos do Sistema Único de Saúde (SUS) sejam oferecidos de forma universal, na prática, a maior parte das pessoas enfrenta grande dificuldade de acesso, e muitos optam por outras opções, como clínicas privadas que oferecem esses serviços com valores mais acessíveis. O que fica em questionamento é: dá para viver sem plano de saúde?
Bom, para a estudante de jornalismo, Camila Sampaio, um dos motivos de não investir em um plano de saúde é o compromisso financeiro mensal. “Até pela minha idade, vinte e quatro anos, eu não preciso estar sempre indo ao médico, e para prevenir, tento sempre me cuidar. Assim, é mais conveniente ir atrás de clínicas que oferecem valores diferenciados, principalmente através de plataformas online. Dessa forma, não tenho que pagar um valor fixo mensalmente. Isso é mais prático financeiramente e também menos caro“.
A busca por alternativas aos planos de saúde é uma realidade crescente, principalmente entre os jovens, em que tem se observado um recuo no número de beneficiários desses planos. E boa parte deste público está descobrindo que sim, há vida fora dos planos de saúde.
Ao mesmo tempo em que cresce a demanda no acesso público, aumentam as alternativas de consultas, exames e até internações feitas de forma particular com preço mais baixo do que o habitual. São várias modalidades de empresas que oferecem serviços assim. Há plataformas como o Cliniclub e o VidaClass, que permitem localizar médicos que cobram de R$ 60,00 a R$ 220,00 por consulta. Outra alternativa em expansão são as clínicas populares, cujos preços em geral variam entre R$ 50,00 e R$ 150,00.
Outro modelo crescente de acesso a serviços é o de saúde por assinatura, que está se mostrando uma alternativa aos planos de saúde. Tanto para os pacientes prestes a perder suas coberturas diante do recente reajuste quanto para laboratórios e hospitais, a alternativa que vem dando certo em países como a China pode popularizar uma nova cultura de cuidados com a saúde no Brasil: a cultura da prevenção.
Neste modelo por assinatura, o paciente geralmente usa um aplicativo e escolhe um tipo de assinatura. Com direito a certa quantidade de consultas e exames, ele faz sua consulta online, e, em caso de alguma suspeita, o médico pede exames. Dependendo do tipo de assinatura, há mais consultas além dos retornos e também consultas físicas.
Na China, a Ping An, da Good Doctor, é a plataforma de assistência médica que traz esta nova jornada do paciente desde 2015. O paciente pode se sentar em uma das várias clínicas de três metros quadrados espalhadas pela China e conversar com um sistema especializado de inteligência artificial, chamado AI Doctor, sobre seus sintomas. O médico “na nuvem” da internet reúne o histórico médico e elabora um plano de diagnóstico, que será então passado para um consultor especialista por meio da telemedicina. As clínicas funcionam 24h, facilitam a compra de medicamentos e economizam tempo de registro e filas.
No Brasil, a nova proposta de jornada do paciente é feita pelo Cliniclub, que visa atender os cerca de 75% da população brasileira que não têm planos de saúde. Com planos de assinatura que giram em torno de R$34,90, bem abaixo dos praticados pelos planos de saúde, os usuários podem agendar consultas e procedimentos, através da plataforma online, já que a solução envolve parcerias com centros de exame físico, clínicas dentárias, instituições de cirurgia plástica e farmácias. Um ecossistema de circuito fechado. De quebra, a plataforma cria um novo modelo de cashback, o chamado dinheiro de volta, que bonifica o assinante todas as vezes que ele realiza uma ação que pode melhorar sua saúde e bem estar, por exemplo, quando usa a rede parceira para comprar alimentos saudáveis, óculos, praticar esportes, contratar planos de academia, entre outros. Segundo o CEO da plataforma, Dr. Victor Campelo, a assinatura pode até mesmo ficar gratuita, na medida em que o usuário usa o sistema, inaugurando a cultura da prevenção e promovendo inclusão, já que tem valores mais baixos.
O segredo para oferecer tudo isso a um custo mais baixo está em uma engenharia financeira que resulta em enxugamento de custos, o que inclui estruturas mais simples e menos investimentos em hotelaria. Isso ajuda a explicar a capacidade de oferta de produtos mais baratos. No caso dos laboratórios, eles levam vantagem também ao receberem mais rapidamente. Nas parcerias, ganham no pagamento em débito ou crédito, enquanto nos procedimentos feitos por meio dos convênios demoram até três meses para receber.
No meio disso tudo fica o consumidor, ávido por soluções que atendam ao seu bolso e necessidade. Vale a pena sair do guarda-chuva dos planos de saúde para recorrer aos novos serviços ou ficar na dependência do atendimento público?
A resposta varia de acordo com questões muito pessoais, entre elas a etapa de vida e o valor pessoal que se dá aos cuidados com a saúde e as prioridades nesse aspecto da vida. Caso a preocupação seja manter alguma segurança de atendimento particular, incluindo o oferecido pelas novas opções que estão chegando ao mercado, o ideal é ter uma reserva financeira suficiente para cobrir gastos que poderão advir considerando até condições mais graves, como câncer ou acidentes sérios. Para os que não têm condições de juntar esta reserva e, nem de pagar as mensalidades cada vez mais altas dos planos de saúde, a decisão de adotar estas novas alternativas também têm se mostrado a melhor opção.
