Quero lhe falar de uma dor. De uma dor que pouca gente sente ou já sentiu. De uma dor que talvez alguns nem compreendam. Uma dor coletiva, atemporal.

Há anos percebi que havia no mausoléu do Dr Abdias Neves (1876-1928), no Cemitério São José em Teresina, uma peça de extremo valor artístico e cultural. Tratava-se de uma escultura de aproximadamente 40cm, de autoria de um dos maiores escultores franceses do início do século XX, Henri Louis Levasseur (Paris, 1853-1934) que ganhou vários prêmios nos Salões de Arte em Paris.

Levasseur tem obras nos Jardins de Luxemburgo, grandes museus europeus e faz parte de grandes coleções. Levasseur é um dos mais importantes escultores franceses do século. Registra-se uma outra obra dele no Instituto Ricardo Brennand em Recife.

No mausoléu de Abdias Neves lá estava fincada uma escultura deste extraordinário escultor: um trabalhador. Bem provável por ter sido Abdias Neves um importante maçon em Teresina, contemporâneo de Sinval de Castro e Silva. Alheio ao valor da peça, as pessoas passeavam ao redor do mausoléu sem atenção alguma.

O polímata Abdias Neves era advogado (juiz em Piracuruca), politico (Senador pelo Piauí), escritor e membro da Academia Piauiense de Letras. Seu famoso livro, Um Manicaca, retrata muito bem os costumes teresinenses de sua época. Manicaca quer dizer “marido que é mandado pela mulher”. O mausoléu é muito simples, mas devido uma série de roubos de objetos de bronze em nossa cidade, preocupava-me com a preservação daquela valiosa peça. Os roubos em nossa cidade estão em todas as partes, não existem mais bustos em bronze como haviam em Teresina. O cemitério é outro local onde os bandidos estão atuando. Levam tudo e provavelmente para derreter e vender.

Levaram um lindo anjo do mausoléu de minha mãe e um enorme Cristo do de um tio. Roubar a peça do Dr Abdias era só uma questão de dias. Apressei-me pra envolver a Academia de Letras para tirar a peça do Dr Abdias e traze-la para local mais seguro.

Não consegui falar com a moça que fazia a limpeza, soube que um parente no Rio pagava-a pra isso. Precisávamos ter a autorização pra retirar a peça e guarda-la num local seguro. Fomos quatro vezes no cemitério e agora, tristemente, soube que a peça foi roubada.

A violência fez ruir o próprio mausoléu. Não há dor que possa imaginar que uma peça de extremo valor possa ser derretida. Um patrimônio piauiense em risco. Torço que as autoridades competentes tomem as medidas urgentes para preservação e salvar essa valioso acervo ainda em tempo. Triste o mundo que estamos criando. Resta-nos a dor da perda de uma obra que estava lá desde 1928. Minha luta foi tarde demais.