O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu por unanimidade, na quarta-feira(07), elevar a taxa básica de juros (Selic) em 0,5 ponto percentual, atingindo 14,75% ao ano – o maior patamar desde 2006 e a sexta alta consecutiva da taxa. A decisão já era amplamente esperada pelo mercado financeiro, diante do cenário de inflação persistente, especialmente nos preços de alimentos e das incertezas no ambiente econômico global.
De modo geral, para os investimentos financeiros, há uma visão positiva para a renda fixa, em especial títulos pós-fixados (que se beneficiariam de eventuais próximas altas) e IPCA+ (uma vez que a inflação permanece acima da meta e os juros reais estão em patamares elevados). Também não se espera reação significativa do mercado após o aumento de 0,50 p.p. na Selic, pois o aumento veio em linha com o consenso do mercado. O indicativo é haver um ajuste de alta nos vencimentos curtos e, na parte longa da curva de juros, pode ocorrer um movimento de fechamento, porém de baixa magnitude.
Já não podemos dizer o mesmo para a economia real. O crédito fica mais caro para consumidores e empresas, encarecendo empréstimos, financiamentos e parcelamentos. Isso tende a restringir o consumo e desestimular investimentos produtivos, impactando negativamente o crescimento do PIB, o emprego e a renda. O setor produtivo, especialmente varejo e construção civil, sente o impacto do aumento dos custos financeiros, o que pode elevar a inadimplência e comprometer o fluxo de caixa das empresas.
Vale mencionar um efeito fiscal importante observado. O custo da dívida pública aumenta significativamente. Cada ponto percentual de alta na Selic representa alguns bilhões a mais por ano no serviço da dívida, pressionando ainda mais as contas públicas e elevando o risco fiscal. E, por isso, de acordo com o MADE-USP, mantida a Selic alta, as alternativas disponíveis para estabilizar a trajetória da razão dívida/PIB seriam: 1) atingir um crescimento econômico muito alto e/ou 2) alcançar um superávit primário elevadíssimo, ambos improváveis neste cenário, já que a própria taxa de crescimento do PIB é impactada tanto pelos juros quanto pelo resultado primário. Além disso, o arrefecimento da atividade também acaba aumentando o desemprego.
Assim, se por um lado, o mercado entende como acertada a decisão do Copom diante do risco inflacionário, por outro, a medida distanciaria a possibilidade de estabilizar a dívida, além de não demonstrar eficiência contra a alta dos preços já que, tendo sido puxada principalmente pelo grupo de alimentos e incertezas relacionadas ao cenário externo, é causada por questões de oferta, as quais são associadas a situações exógenas e de mudanças climáticas.
Neste contexto, no qual os preços são pressionados por fatores como aumento nos custos de insumos, desequilíbrios em cadeias produtivas e choques externos (como preços de commodities e eventos climáticos), a abordagem tradicional de elevação da taxa de juros não seria a escolha mais eficaz.
Alternativamente à regulação do crédito e operações de mercado aberto, no que tange aos ajustes de política monetária, poderiam ser implementados aumento das reservas obrigatórias, exigindo que os bancos retenham mais recursos e impondo limites mais restritivos à capacidade de crédito e consumo. Com certeza é também essencial gerenciar melhor as expectativas e a comunicação estratégica. Uma marca da atual gestão é a péssima comunicação. Assim, reforçar os compromissos institucionais com metas claras e maior carga técnica evitaria ruídos que amplificam as incertezas. Na contramão do que se vê, uma medida de contenção seria reduzir as burocracias e tarifas para importação de produtos essenciais para recrudescer a oferta, assim como criação (ou retomada) de estoques reguladores, como reserva de commodities poderia auxiliar à estabilização de preços diante de momentos de instabilidade.
Além da política de juros, há evidências de que o Banco Central tem realizado intervenções no mercado de câmbio. Em 2025, foram promovidos leilões de venda de dólares das reservas internacionais para suavizar a volatilidade do real, o que pode ajudar a conter repasses cambiais aos preços internos, especialmente em momentos de choques de oferta globais. Não há, porém, evidências recentes de adoção de medidas mais estruturais ou coordenadas com outras áreas do governo, como acordos comerciais, por exemplo, e o sempre necessário aumento no investimento em infraestrutura.
Em resumo, o Banco Central do Brasil tem respondido à inflação – inclusive a de oferta – principalmente com elevação dos juros e intervenções pontuais no câmbio, sem implementar, no âmbito de sua atuação, políticas setoriais ou estruturais para contornar diretamente os choques de oferta. Porém, inflação de oferta exige soluções além do manual convencional de política monetária. Enquanto a Selic elevada pode agravar o custo fiscal e frear o crescimento, medidas estruturais podem oferecer respostas mais precisas. O desafio está em equilibrar o controle de preços sem estrangular a atividade econômica. Assim, como resultante, diminuem-se as perspectivas para crescimento econômico ao mesmo tempo que se gera pressão por maior austeridade.
Fonte: Economista Elinne Val – Mestre em Economia e Assessora de Investimentos
