O Centro Regional de Assessoria e Capacitação (CERAC), em parceria com a Embrapa Meio-Norte, por meio do Programa Agrobiodiversidade e da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), realizou, no Assentamento Pedra Branca, a 20 km do município de Pedro II (PI), uma aula de campo com guardiões e guardiãs mirins e adultos das Sementes da Fartura. A atividade teve como foco a realização de testes de transgenia em sementes crioulas e a implantação de testes de germinação, envolvendo agricultores e agricultoras familiares da comunidade.
Foram testadas variedades tradicionais de milho: dente-de-burro, vermelho, branco, amarelo, ligeiro e coruja, cultivadas e preservadas por gerações pelas famílias do assentamento. A atividade contou com a participação ativa das crianças da comunidade, que vêm se empenhando em aprender e preservar a socioagrobiodiversidade local.
O coordenador do CERAC, José Maria Saraiva, também coordenador estadual do Programa Sementes da Fartura e defensor da causa, destacou a importância do envolvimento da comunidade e da troca de saberes entre gerações:
“É muito importante, na comunidade Pedra Branca, esse envolvimento das crianças, porque elas são o futuro das sementes crioulas. Além de uma aula com os técnicos do CERAC, tivemos uma rica troca de saberes entre gerações. Este é um momento único, em que se aprende a importância de testar as sementes e realizar o teste de germinação para observar qual variedade melhor se adapta ao solo da comunidade. Para nós, guardiões adultos, é gratificante não deixar que as sementes dos ancestrais se acabem. As crianças têm um papel fundamental nesse processo de preservação e multiplicação.”
As variedades testadas serão cultivadas no campo de multiplicação da comunidade, localizado no mesmo espaço da Casa de Sementes da Fartura Lauro Chaves dos Santos e da Casa de Farinha, permitindo que toda a comunidade acompanhe o desenvolvimento das sementes e que as crianças participem de todas as etapas do processo. Como destaca Rosângela Araújo, bolsista do Programa Agrobiodiversidade:
“A comunidade vai implantar um campo de multiplicação de sementes nativas. Embrapa Meio-Norte, CERAC e comunidade, juntamente com as crianças, farão o acompanhamento, resgatando variedades, fortalecendo a Casa de Sementes da Fartura e os agricultores, que poderão comercializar e gerar renda na comunidade com um produto saudável e carregado da história de nossos ancestrais.”
O agricultor familiar José Chaves, conhecido como Bigode, teve duas variedades de milho testadas, todas com resultado negativo para transgenia, confirmando que são sementes nativas. A notícia lhe trouxe grande alegria, pois, como guardião das Sementes da Fartura, ele se orgulha de repassar os conhecimentos aos filhos Elisiane e Lucas, também guardiões:
“Foram testados meus milhos vermelho, branco e amarelo. Para mim, é importante demais ter essa certeza de que a semente permanece pura. A gente tenta preservar o máximo possível e espalhar para outras comunidades. É uma semente muito resistente à seca, uma semente crioula, coisa do meu pai. Trabalhamos muito juntos, aprendi com ele a guardar e preservar as Sementes da Fartura e, hoje, repasso às crianças.”
Já o agricultor e guardião de sementes Agenor Paulino relatou que, ao testar uma variedade de milho ligeiro recebida no ano anterior, descobriu que ela não era nativa. Para ele, o teste foi fundamental:
“A iniciativa foi muito importante, porque eu ia plantar um milho que não sabia que era transgênico. Com o teste, decidi descartar essa variedade e plantar apenas as que deram negativo. Guardo muitas sementes, compartilho com outros lavradores e gosto de ensinar às crianças o que aprendi com meus pais e avós.”
A agricultora e monitora dos Guardiões Mirins da Socioagrobiodiversidade da Casa de Sementes da Fartura Lauro Chaves dos Santos, Solange Chaves, ressaltou a relevância da atividade:
“Esse é um momento muito importante, que mostra aos agricultores a importância dos testes que o CERAC realiza nas comunidades com Casas de Sementes. É fundamental saber que tipo de semente estamos cuidando, fortalecer o Projeto Agrobiodiversidade e garantir que esse conhecimento seja passado de geração em geração, preservando esse patrimônio genético do povo do Semiárido, muito valioso para os guardiões e guardiãs mirins.”
A atividade também contou com o lançamento do Boletim e do banner do Candeeiro, da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), que retratam a trajetória das crianças no fortalecimento das Sementes da Fartura, além da entrega de certificados da Escolinha de Agroecologia, que funciona na Casa de Sementes. Nela, as crianças participam de aulas de agroecologia e aprendem, na prática, a cuidar e preservar a socioagrobiodiversidade.